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"Existe na paciência determinado ápice,
às vezes, pouco lembrado.

Efetivamente, é com a paciência que se ouvem acusações indébitas, sem reações violentas; que suportamos as vicissitudes da existência, sem nos queixarmos; que se toleram as ironias e os sarcasmos dos adversários gratuitos; que se atravessam com serenidade os espinheirais da incompreensão que se desenvolvem nos entes mais caros; que se agüentam injúrias e pedradas do desequilíbrio e da ignorância que ainda governam muita gente no mundo.

A paciência, em verdade, é a força que nos assegura a calma e o discernimento nas horas amargas; no entanto, é justo lembrar que tão-só na paciência encontramos a proeza de saber alguém humilhar-se e esquecer-se, chorar e sofrer, perseverar no bem e sustentar-se na luz do amor ao próximo, apesar de todas as vicissitudes da vida e continuar trabalhando e servindo sem reclamar."

Emmanuel (do livro Luz Vida)

 
Edição 184
Julho/Setembro 2009

CARTA DE AMOR E SAUDADE

Amado rei e senhor meu, digne-se Nosso Pai de Infinita Bondade abençoar-vos e engrandecer-vos sempre.

Tão grande é a similitude das situações desta vossa servidora, que, um dia, desejastes arrancar ao anonimato e à bastardia, para compartilhar a vossa real presença, entre o passado e o presente, que vos peço perdão se recordo a ocasião em que me destacastes em vosso afeto.

Desfrutáveis a liberdade para algo dizer-me de vosso amor, entretanto, de que modo conseguiria expressar-vos a imensa ternura que me inspiráveis, em minha condição de fraca mulher chamada a servir em vossa real moradia?

Sabeis que caí sob o domínio da febre maligna quando me dissestes, pela primeira vez, que eu estava em vossa alma, que me debati entre a vida e a morte, chamando-vos para junto de mim... de tudo isso sabeis.

Protegestes a minha convalescença, restituindo-me a saúde, mas, quando voltastes a me falar de vosso amor, no Paço de Lisboa, porque eu chorasse, incapaz de responder, afirmastes magoado:

— Já sei. Amais a outro e não a mim.
— Isto nunca aconteceu, respondi entre lágrimas.
— Então, por que a recusa?
Ante a vossa indagação, esclareci que era minha intenção professar na Ordem de Santa Clara, que, decerto, bastarda como eu era, não poderia, de minha parte, fazer a felicidade de ninguém.
Fixastes-me com imensa tristeza e acrescentastes:
— Compreendo, Inês... Sei que não me quereis diante da minha dificuldade de expressar-me... Creio que não sei falar quanto vos amo... Em família e na Corte, todos me acreditam calado, impenetrável... Certamente, qual ocorre aos outros, tendes medo de mim...
— Quem vos disse tamanha inverdade?
Apenas compreendo a distância que nos separa. Deus sabe quanto vos admiro e respeito...
— Só isso? acentuastes em tom amargo.
Inês, eu sofro muito...
Incapaz de sopitar os sentimentos que me turbilhonavam no coração, expliquei francamente:
— Eu vos amo com todas as forças de minhalma, eu vos amo desvairadamente, senhor! Acaso não vedes que as minhas lágrimas falam mais que as palavras?
— Então, salvai-me deste sofrimento, dissestes.
— E quem me salvará, senhor? Repliquei no pranto convulsivo em que me desfiz totalmente.
— Eu vos salvarei respondestes.
Então, no aposento isolado, me tomastes nos braços fortes, como querendo guardar a minha fragilidade na fortaleza de vosso peito leal e magnânimo, e me beijastes tão profundamente e tantas vezes, qual se quisésseis marcar-me com o vosso amor para sempre.

Desde esse instante, confirmei a mim mesma que eu nascera propriamente vossa.

Para mim não importavam mais o sofrimento ou a morte. Sentia-me vossa, sem condições. Qualquer argumento do mundo contra semelhante verdade teria a força de minúsculo galho de arvoredo que se propusesse a sustar a correnteza de um grande rio.

Entreguei-vos, amado soberano, o que eu chamava como sendo minha vida, como já vos pertenciam o meu coração com todos os meus pensamentos.

Isso acontecia em mim, não porque fôsseis o príncipe e futuro rei, porque, se estivésseis na estamenha de um carvoeiro, seria vossa propriedade sem qualquer condição.

Sabeis que a intriga palaciana, a injúria dos conselheiros, a perseguição das autoridades do reino e as tramas dos áulicos sem piedade conseguiram deslocar-me de vossos braços e me fizeram marchar para o exílio.

Sabeis quanto nos doeu a separação.
Não era a terra florida e acolhedora do vosso País que eu deixava, com o banimento a que me votaram, mas sim deixava a própria vida em vossas mãos. O que foram aqueles tempos de saudade e de dor que somente as vossas letras amenizavam, sabe-o Deus.

A morte da Rainha Dona Constança Manoel, que todos lamentamos de coração, logo após o nascimento de vosso filho, o rei Dom Fernando, induziu-nos a renovar as nossas vivências.
As emoções de nossa viagem recente me trouxeram à memória as resoluções que adotastes.

Chegastes ao Solar dos Albuquerques, em que meu exílio se fixara, e decidistes trazer-me de qualquer modo.

Não havia como alterar-vos as decisões e, embora soubesse, com os parentes e amigos, que a minha volta ao vosso País desafiaria a autoridade de vosso amado pai, o amor foi mais forte que o receio, e acompanhei-vos sem titubear.

Instalastes-me em vossa companhia no Paço Real da Serra de El-Rei, nas vizinhanças de Peniche, após laboriosa viagem em que tudo fizestes para me evitar as preocupações.

Nesse ninho erguido entre o verde e as flores da região, nasceu-nos o primeiro filho, a quem chamastes Dom Afonso, em 1349, e palavras humanas não descreveriam o júbilo e a esperança de que nos sentíamos tomados, ante aquela vida abençoada que desabrochava das nossas.

Dom Afonso, porém, pareceu-nos uma flor por demais sensível ao clima espiritual dos conflitos que se multiplicavam em derredor de nós e voltou para os Céus, deixando-nos imensa dor.

Perseguidos de novo por intrigas que vos vinham às mãos de vários pontos, estivesse a Corte em Lisboa ou em Évora, em Santarém ou em Coimbra, a vossa real benemerência conduziu-me em nova viagem, para as cercanias de Bragança, de onde poderíamos, a qualquer momento, retomar o caminho para a Galiza...

Nossa felicidade nunca se alterou. Nosso segundo filho, Dom João Álvaro, veio ao mundo enlaçar-nos ainda mais...

E depois os outros dois, D. Dinis e D. Beatriz.
Perdoai-me se vos falo tanto em saudade, mas crede, amado soberano, que sois, hoje como ontem, agora como sempre, a minha própria vida e a minha luz.

Deus vos guarde e abençoe com todos os corações que se fizeram estrelas de nosso amor.


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