Ao meu caro Quintão
Quintão¹, eu sei da saudade
Que te aperta o coração,
Dos nossos dias passados,
Que tão distantes se vão.
Vassouras!... belas paisagens
Cheias de vida e de cor,
Um céu azul e estrelado
Cobrindo uns ninhos de amor.
Árvores fartas e verdes
Pela alfombra dos caminhos,
A ermida branca e suave
De ternos, doces carinhos.
O nosso amigo Moreira
E a sua barbearia,
Onde uma vez me encontraste
Na minha noite sombria.
Detalhes cariciosos
Da vida singela e calma,
Vida de encantos divinos
Que eu via com os olhos dalma.
Meus pobres versos - "Singelos",
"Aves implumes" da dor,
Que traduziam no mundo
O meu pungente amargor.
A minha pobre Carlota,
A companheira querida,
O raio da claridade
Da noite da minha vida.
Os artigos do Bezerra²
De outros tempos, no "O País",
O mestre da Velha Guarda,
Unida, forte e feliz.
A tua doce amizade
À luz do consolador,
Teu coração generoso
De amigo, irmão e mentor.
Ah! Quintão, hoje os meus olhos
Embebedam-se de luz,
Pelas estradas sublimes
Da santa paz de Jesus!
Mas não sei onde a saudade
É mais forte nos seus véus,
Se pelas sombras da Terra,
Se pelas luzes dos Céus.
Casimiro Cunha
( Extraída do livro "Parnaso de Além-túmulo" 16ª edição FEB, pág 207)
Manuel Quintão nasceu em 28/05/1874 na cidade deValença-RJ e mais tarde radicou-se em Vassouras. Foi guarda-livros, depois de lutar com imensas dificuldades, como jovem sem recursos financeiros, nas posições mais modestas do comércio. Chefe de família numerosíssima, estudioso incansável, conseguiu, como autodidata, invejável cultura humanística. Foi jornalista, ingressando na FEB em 1903, integrando-lhe o quadro social por 44 anos. Médium curador e espírita militante durante mais de meio século, desencarnou em 16 de dezembro de 1954 no Rio de Janeiro.
(2) Em 16 de agosto de 1886, com quase cinqüenta e cinco anos, diante de um auditório de duas mil pessoas, na sala de honra da Guarda Velha, Dr. Bezerra de Menezes anunciou publicamente sua adesão ao Espiritismo. O acontecimento tomou de surpresa a sociedade , já que ele era homem de grande influência. O comunicado público seguiu-se de trabalho árduo no meio espírita. Em 1887, o Médico dos Pobres passou a escrever uma série chamada "Espiritismo - Estudos Filosóficos", que saía aos domingos no jornal "O País", com o pseudônimo de Max. Vale lembrar que na época esse era o jornal mais lido no Brasil. Continuaria a série de artigos até o Natal de 1894. Escreveria depois, com o mesmo pseudônimo, em outros dois jornais sempre em defesa dos postulados do Cristo Jesus, calcado na visão espírita.