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Relembrando nosso Chico - Lindos Casos de Chico Xavier

O Chico que conheci

Ao cair da noite de 30 de junho, quem contemplasse nosso Céu de algum ponto privilegiado do Hemisfério Sul, com as constelações do Inverno Austral já ensaiando sua participação no cenário do firmamento, atônito veria um astro luminoso deslizar por entre as estrelas de Escorpião, contrastando com o brilho vermelho de Antares, singrando os espaços do Cruzeiro do Sul, esmaecendo a Magalhães, confundindo o mudo e constante colóquio das guardiãs de Centauro e arrostando a orgulhosa imponência de Vega, nas bandas setentrionais do Céu.

Tratava-se de alguma estrela perdida na Via Láctea, de magnitude ímpar que faria Sirius morrer de ciúme, desbancando-a da sólida posição de estrela mais luminosa das noites de Verão? De um astro ignoto a romper, com sua ousadia, a rotina do equilíbrio cósmico? Ou, quem sabe, de algum Anjo pisando os astros em graciosa peregrinação...

Eu tive a oportunidade de presenciar a caminhada cósmica desse ponto de luz. Observei aquele núcleo condensado de azulada luminosidade passeando, com insólita familiaridade, por entre os astros da nossa abóbada celeste, parecendo-me, mesmo, que as potestades da luz reverenciavam a nova luz que as ofuscava. Aqui da Terra, quedei-me a contemplar o novo habitante das galáxias, que facilmente identifiquei.

E porque não tive dificuldade em fazê-lo?
Curioso...as pessoas têm o seu magnetismo intrínseco, que as individualiza; sempre há alguma coisa de particular em cada um dos mortais da Terra que se evidencia, com mais ênfase, nos moradores da Pátria Espiritual. Por vezes, em nossos momentos de solidão, nas situações difíceis, nas horas de júbilo, ocorre sermos visitados por uma alma amiga cuja presença indefinível pelos padrões da matéria que nos envolve é facilmente definida pelos abstratos elos do sentimento.

Foi por isso que vi Chico Xavier passeando por entre as estrelas naquela noite inesquecível. Falar dele, de sua ausência, do que representou para a Humanidade sua passagem pela Terra, do sentido de sua identificação com o Espiritismo, muitos o farão, com esmero e propriedade.

Quero, nesta sincera homenagem que lhe presto, falar do amigo Chico Xavier, do companheiro de quatro décadas que, de modo especial, nos últimos vinte e cinco anos de convivência, acompanhou-me a trajetória, preenchendo a lacuna deixada pela partida para a Vida Espiritual de meu pai, em dezembro de 1979.

Foi, em essência, um outro pai para mim, amigo, compreensivo, tolerante ao extremo com minhas descortesias involuntárias, fruto da habitual tendência ao isolamento, das dificuldades que tenho para viagens e para a ruptura, enfim, do ramerrão cotidiano.

Dos momentos áureos de minha vida, quando pudemos estar juntos com mais freqüência, na época em que com mais facilidade me dirigia até Uberaba, guardo recordações inesquecíveis.

O carinho com meus familiares, a gentil atenção para com minha esposa, a garrida alegria que proporcionava a meus filhos, incentivando os meninos a terem paciência, pois o Palmeiras ainda seria campeão, dizia-lhes, consolando-os, já que meus filhos ingenuamente lhe imploravam para que, nos seus contatos com os Mentores Espirituais, pedisse ajuda ao seu time do coração.

Comovente era o carinho que dispensava à minha filha, presenteando-a com bonecas que ela lhe solicitava, ignorando quão difícil seria para o seu bolso magro atender-lhe aos pueris anseios.

Naqueles tempos dourados, conversávamos muito...Foram horas e horas inesquecíveis em que o Chico, quase que o único interlocutor, entremeava os assuntos doutrinários com exemplos da História, esquadrinhando detalhes impossíveis de se conhecer, sem que se possua a sua mente privilegiada. Ao desdobrar dos temas que a espontaneidade do papo colocava em relevo, Chico fotografava períodos obscuros da Humanidade, apenas abordados pelos alfarrábios encontradiços nos cantos mais esquecidos das bibliotecas e nos tradicionais sebos. E o fazia com naturalidade, sempre costurando lições de vida, ponderações calcadas à luz do Evangelho.

Aprendi muito e creio que, se tivesse a tranqüilidade emocional necessária, poderia colocar no papel um pouco do muito que dele ouvi. Contudo, não o fiz quando o Chico estava conosco e não o farei em sua ausência física, pois, o coração sexagenário exige cuidados que a emoção e a saudade não permitem, embora esteja convicto de que minha omissão voluntária faz silêncio sobre memoráveis ensinamentos, exemplos e ponderações que, se veiculados, enriqueceriam a nossa Doutrina e enfatizariam a indiscutível retidão de seu caráter, a sua grandeza de alma e a vocação obsessiva pela luta inarredável em favor da definitiva implantação da Mensagem de Jesus na Terra.

Com a precisão de sua bússola interior que o fez naquela noite navegar pelos Céus - e, eu o presenciei, como privilegiado espectador - Chico mostrou-me veredas encantadoras, caminhos que ainda ensaio percorrer, com a consciência de que poderia ter vivenciado mais os exemplos que me transmitiu, enriquecendo sobremaneira a noção das responsabilidades que me são próprias nesta vida.

O maestro italiano, Gianandrea Gavezzeni, dedicando algumas palavras a um cantor lírico que admirava, referindo-se à sua saudosa convivência no período mais importante de suas carreiras, ao longo dos anos sessenta, concluiu, dizendo:

“Caro Franco, ci resta soltanto il ricordo. Ci vuol pazienza: la vitta e l'arte, e la musica e il teatro, sono fatti così. Non possiamo arretrare con il tempo".

E, ao fim desta homenagem, ainda que sem o brilho dos expoentes da Lírica Italiana, gostaria que o Chico algum dia soubesse que a seu respeito eu escrevi pelo menos estas palavras:

- Querido Chico, resta-me somente a recordação de dias que já não voltam. Impossível é recuar no tempo. É preciso paciência: a vida é feita assim; é luta constante e sua música é o trabalho em benefício do próximo no palco da Terra. Foi o que aprendi com você, caro amigo.

Muito obrigado e até o próximo reencontro em que não faltarão o bolo "sem açúcar" e o cafezinho, e, quem sabe, novas e saudosas recordações, ao som das muitas fitas cassetes, que você me deu, hoje gastas de tanto rodar no velho toca-fitas...


Caio Ramacciotti

São Bernardo do Campo, 02 de julho de 2002


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